O senhorio intransigente
Monólogo de um arrendatário injustiçado:
Parece impossível, veja lá, o sacana do senhorio não quer vender. Este sempre foi o nosso lar, moralmente a casa é mais nossa que dele. Olhe que o meu falecido pai veio para cá ainda estudante, dividia então a renda com meia dúzia de colegas e aqui acabou por morar toda a sua vida. Depois o arrendamento passou para o nome da minha mãe, com quem eu vivo, aliás hei-de viver até Deus a levar, que são oito assoalhadas à Avenida de Roma por onze contos e quinhentos, não me arrisco a sair daqui e perder o direito à casa, apesar da velhota não se dar com a minha mulher e já não se falarem há anos. Coisas de sogras e noras, sabe, relações complicadas, às vezes o ambiente familiar é tão gelado que me constipo só de passar a porta de entrada.
A minha mulher ainda insistiu para nos mudarmos para um apartamento que ela herdou, mas eu disse-lhe nem penses filha, não sou capaz de viver nos subúrbios. Vamos mas é vender, que o apartamento fica numa área que valorizou muito nos últimos anos, felizmente não tem inquilinos e está em óptimo estado de conservação. Com o dinheiro compramos esta casa ao senhorio, a minha mãe já pode ir morar com a tia Dulce, lá em Barcelos, que é o sonho dela, e ainda ficamos com fundos para mudar a decoração, trocar de carro e passar umas férias à maneira.
Bom, mas agora o palerma do Senhorio tramou tudo. Ofereci-lhe quinze mil contos e o gajo não me quer vender a minha casa. O imbecil diz que quer passar aos filhos o património que herdou dos pais. Como se eles contassem com isto para viver! O estupor parece que não sabe fazer contas. Embolsava, de uma vez só, mais do que a casa lhe rendeu em toda a vida e ficava livre de chatices e obrigações.
Devia haver uma lei que protegesse os inquilinos nestas situações, não acha?
Ah, a propriedade, esse dever!
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